O convite do Serafim

Name: Janus

Friday, June 24, 2005

A Idade Do Universo

Há mais ou menos um ano li, com uma voracidade incomum a quem mui custosamente aprendeu as quatro operações e jamais conseguiu concluir uma longínqua cadeira de Estatística na faculdade, “ A verdade por trás do código da Bíblia” ( Breaking the Bible code), do psiquiatra e físico americano Jeffrey Satinover. O assunto vocês devem conhecer: estatísticos e especialistas em criptografia, tanto judeus quanto gentios, tanto religiosos quanto céticos, embasbacados diante de – ao que tudo indica – padrões ocultos no Antigo Testamento, contendo informações acerca de fatos que viriam a ocorrer séculos após a redação do Pentateuco. Como se a Bíblia fosse um computador no qual estivessem contidos dados tanto do passado quanto do presente e futuro – algo realmente assus
tador. Para esse tipo de assunto levanta-se uma legião de crédulos e outra maior de céticos. Como já fui crédulo e como já fui cético, e não trago boas lembranças de nenhuma das duas fases, prefiro manter-me à escuta. E o livro do Dr. Satinover é bom porque não alimenta a fogueira dos apressados em encontrar, a todo custo, confirmações de sua fé através da ciência, mas também não pacifica os que de bom grado torcem o nariz a qualquer assunto que lhes soe escapar da visão materialista do mundo.
Mas, conforme disse, li o livro há quase um ano e ele, embora bem escrito e didático, é bem carregadinho de Estatística e Matemática, e não serei irresponsável para sair resenhando temas que, conquanto gravados em linhas gerais na minha mente, não me são acessíveis em seus detalhes. E detalhes, nesse tipo de assunto, é algo importantíssimo. Mas, para não perder a viagem, convido vocês a relerem comigo parte de um dos apêndices do livro, que trata do sempre fascinante paralelo entre cosmologia moderna e concepções de cabalistas e filósofos judeus acerca da criação. É, no mínimo, impressionante.

“1. Por razões desconhecidas, o universo surgiu ex nihilo – do nada;
2. Ele apareceu primeiro como um ‘microglóbulo’, quase inconcebivelmente minúsculo;
3. Ele era inicialmente composto de uma minúscula proporção de matéria misturada com uma enorme quantidade de energia ‘comprimida’;
4. O ‘microglóbulo’ então explodiu, quase à velocidade da luz – o Big Bang. No seu primeiro segundo de existência, ele passou do tamanho de um pontinho, menor que um átomo, para uma massa globular com mais de 430.000 quilômetros de diâmetro, com um volume cinco mil vezes maior que o da Terra. Sua expansão fez com que grande parte da energia se convertesse, por estágios, em matéria. E desde então ele tem estado a se expandir em ritmo similar;
5. O ‘microglóbulo’ começou com dez dimensões; seis delas imediatamente ‘entraram em colapso’, reduzindo-se a escalas de tamanho tão pequenas que hoje nos são inacessíveis, restando as quatro dimensões com que estamos familiarizados: as três dimensões do espaço e a dimensão do tempo (...). A substância inicial dentro do microglóbulo tomou a forma de uma ‘corda’ decadimensional de energia quase pura. As cordas que hoje preenchem o universo permanecem quase inconcebivelmente finas e insubstanciais (...)mas, já que se estendem por todo o universo, estima-se que cada uma delas tenha uma massa equivalente a [bilhões] de sóis. Essa é a chamada Teoria das Supercordas (...).”

O autor lembra que os cientistas estimam a idade do universo em 15 bilhões de anos. E que a idéia de um universo tão velho assim só veio a ser concebida no século XX. Antes, ou se achava que ele era eterno ou então possuía alguns milhares de anos. Pensem nisso e leiam o que segue. São idéias desenvolvidas na Idade Média.
“1. Tanto Maimônides (o Rambam) quanto Nachmânides ( o Ramban) afirmam que não existia espaço nem tempo antes da Criação; por isso, ambos surgem ex nihilo – do nada;
2. Os cabalistas daquela mesma época explicam ainda que, antes da criação, Deus preencheu toda a eternidade de maneira perfeita e uniforme. No instante da criação, porém, Ele Se ‘retirou’ de uma região esférica no centro mesmo da eternidade, para criar um ‘vazio’ ou ‘vácuo’. Neste, Ele colocou uma porção de Sua própria essência sob a forma de uma linha, infinitesimalmente fina, de ‘Luz Superior’, que evoluiria até se transformar no universo físico. Segundo Nachmânides, em seu comentário sobre o relato da Criação, naquele momento parecia que o universo ‘não era maior que uma semente de mostarda’. Para os antigos, a semente de mostarda era a menor unidade viva capaz de se expandir e crescer até algo imenso.
3. Eis como Nachmânides caracterizou o tamanho dessa ‘semente’, na tradução resumida de Gerald Schroeder:

A matéria, naquele tempo, era tão fina, tão intangível, que não possuía substância real. Mas ela possuía o potencial para ganhar substância e forma, e tornar-se matéria tangível.

4. Nachmânides então descreve o que ocorre com esse minúsculo universo do tamanho de uma ‘semente’:

A partir da concentração inicial dessa substância intangível em sua localização infinitesimal, a substância se expandiu, expandindo o universo ao fazê-lo. Á medida que a expansão progredia, ocorreu uma mudança na substância. Aquela substância inicialmente fina e incorpórea assumiu os aspectos tangíveis da matéria tal como a conhecemos. Desse ato inicial da Criação, dessa pseudo-substância etereamente fina, tudo o que já existiu ou um dia existirá, foi , é e será formado.

5. O feixe de ‘Luz Superior’ que formou o universo em seu estado ‘semente’ era composto de dez aspectos ou dimensões. Durante os seis dias da criação , seis desses aspectos tornaram-se tão pequenos que somos capazes de detectar apenas os outros quatro –as quatro dimensões da existência física”.


Intrigante é saber que cabalistas como Nechunya bem HaKanah e Yitzhak Acco calcularam, a partir de permutações e do cálculo de letras no relato do Gênese ( no hebraico, cada letra equivale a um número)e concluíram que a idade do Universo entre seu surgimento e a criação do homem consistia em 42.000 Anos Divinos. Cada “ano divino” corresponde a 365.250 dos nossos anos. Assim, entre a origem do universo e o surgimento do homem passaram-se 42.000 x 365.250 anos. O Gênesis,portanto, diz que o universo nasceu há 15.3 bilhões de anos. Eu repito: isso foi na Idade Média.

Citações: Satinover, Jeffrey. A verdade por trás do código da Bíblia. SP: Pensamento,2002 (pp.281 a 283)

Thursday, June 16, 2005

A Natureza De Deus

(Trabalho febrilmente. Quero escrever,não há tempo. Hora de deixar falar os que sabem mais que eu)

" O simplório acha que Deus é um velho de cabelos brancos sentado num maravilhoso trono de fogo que cintila com incontáveis centelhas; é como a Bíblia enuncia: " o Ancião-dos-dias está sentado, os cabelos de sua cabeça são como limpa lã, seu trono como chamas de fogo". Imaginando isso e fantasias semelhantes, o estulto corporifica Deus. Cai numa das armadilhas que destroem a fé. Sua reverência para com Deus é limitada por sua imaginação.
Mas se fores iluminado, saberás da unidade de Deus; saberás que o Divino é desprovido de categorias corpóreas: estas nunca poderão ser aplicadas a Deus. Então perguntarás, atônito: quem sou eu? Sou um grão de mostarda no meio da esfera da lua que é também um grão de mostarda no meio da esfera seguinte. E o mesmo acontece com essa esfera e com tudo o que ela contém,em relação à esfera seguinte. E o mesmo acontece com todas as esferas - uma dentro da outra - e todas elas são um grão de mostarda no interior de outras expansões. E todas essas são grãos de mostarda no interior de outras expansões.
Tua reverência é fortalecida, o amor em tua alma se expande".
(Texto cabalístico. In: MATT,Daniel. O essencial da Cabala. SP: Best Seller,1995)

Thursday, June 09, 2005

Do Graal e De Rosas Em Sangue

A escrita hieroglífica, a julgar pelo testemunho de René Guénon, tinha um símbolo bem sugestivo para a idéia de “coração”: um vaso. Afinal, é mesmo o coração um vaso onde se guarda e se elabora a vida de um homem, representada pelo sangue, conforme explica o pensador francês. A forma copada do vaso, se fizermos um exercício de extensão simbólica, pode levar-nos em viagem, desde o norte da África, saindo das areias do Egito, para o ocidente europeu, onde encontraremos, entre os celtas, a imagem do cálice sagrado inspirador das lendas do Graal veiculadas pela tradição cristã. Não se trata de uma associação gratuita; vejamos o quanto o simbolismo do vaso, da copa, do Graal, podem ser associados aos símbolos do sagrado coração e do centro do Ser – tema que, vocês vêem, é uma obsessão minha.
Um homem que sabe a morte próxima reúne seus discípulos e oferece, num cálice, o vinho que, na ocasião, representa seu sangue; bebê-lo é associar-se a ele, é participar de sua sabedoria e de sua plenitude. O homem – em cuja figura fundou-se uma tradição, e que a julgar por ela era o próprio Deus – é aprisionado, interrogado,seviciado e posto numa cruz até a morte. Um soldado romano toma de sua lança e fere o flanco do homem, de onde jorram sangue e água; sangue e água recolhidos por José de Arimatéia no mesmo cálice da Última Ceia. O cálice se perde, para, séculos depois, ser buscado por cavaleiros e reis e povoar para sempre a imaginação do Ocidente. Essa é a lenda do Graal nas mais grosseiras das linhas; porém, há um detalhe interessante acerca da origem do cálice que Wolfram von Eschenbach, em seu poema “Parsifal”, nos oferece: o graal seria na realidade uma pedra sagrada, enviada a Terra e guardada por cavaleiros secretos. A pedra, enquanto símbolo, associa-se à idéia de sabedoria ( e penso então em Hermes e na pedra filosofal dos alquimistas) mas não gostaria, por enquanto, de entrar nesse caminho; a pedra, em “Parsifal”, remete-me a uma outra versão, que encontro novamente em René Guénon, e que apresenta o cálice confeccionado pelos anjos a partir de uma esmeralda desprendida da testa de Lúcifer quando de sua Queda; Guénon observa a semelhança da idéia de uma esmeralda na testa com a “urnâ”, pedra sagrada que entre os hindus representa o terceiro olho de Shiva e o sentido de eternidade. Sem querer fazer um amontoado de informações, eu lembro humildemente que é na testa a localização do chacra frontal, responsável pela percepção de dimensões divinas.
Um vaso representando o coração, que é o centro da vida; um cálice representando o coração de Cristo, que é o Logos, o coração do Ser; a procura pelo Graal, representando nossa busca pelo sentido de eternidade obscurecido em nós. Possuir o graal seria pôr em ato uma potêcia perfectiva que há em nós, algo que, conseguido, desvelar-nos-ia o verdadeiro sentido da Beatitude.
Mais belo que tudo isso é verificar que a simbólica do cálice está intimamente associada à da lança, e não só na tradição cristã: algo assombrado, enquanto faço a pesquisa para este texto, vejo a semelhança entre o ferimento de Adônis (que etimológicamente quer dizer “O Senhor”) causado pela presa do javali (por aproximação, a lança). À semelhança da tradição cristã, que atribui à lança de Longinus o poder de curar ferimentos, a lança de Aquiles também o faz. Outro paralelismo deveras importante, no mito de Adônis, é que seu sangue derramado, ao cair no chão, provoca o nascimento de rosas; L.Charbenneau lembra-nos que em um repositório medieval de hóstias vê-se gravada uma imagem do sangue de Cristo vertido dar origem a flores, o mesmo tema repetido em um vitral da catedral de Angers datado do século XIII. Confesso que essa dança de símbolos me causa vertigem. Mas eles me lançam longe e os amo por isso. Por enquanto é o que me importa.

Saturday, June 04, 2005

Campos Organizadores

A experiência é simples, e a analogia eficaz. Pegue um pouco de limalha de ferro, um pedaço de papel e um ímã. Colocando sobre o ímã a folha, e sobre a folha a limalha, você observará que esta conforma-se segundo a orientação de linhas de forças invisíveis, que ordenam um desenho na superfície do papel. Trata-se do campo eletromagnético do ímã, entrevisto a partir da conjugação do papel com a limalha. Não houvesse o papel, você não perceberia as linhas e a limalha aderir-se–ia imediatamente ao magneto. Este é o ponto de partida que o Prof. Hernani Andrade toma para explicar o seu modelo de campo organizacional da matéria, sugerido por von Bertalanffy, e tratado na postagem passada.
Um campo organizacional pode representar a resposta a algumas indagações que a biologia, de um lado, e a psicologia acadêmica, de outro, não conseguiram solucionar. Por exemplo: como explicar, a partir das propriedades da matéria, o fenômeno da embriogênese? É realmente assustador observar as múltiplas divisões de uma célula e sua posterior diferenciação, para que sejam formados tecidos, órgãos e sistemas, como se tudo obedecesse às orientações de uma “fôrma” invisível. Por outro lado, se com o devido respeito observarmos alguns fenômenos tais como a psicocinese e telepatia, bem como as OBE (experiências fora do corpo) e outros fenômenos por demais registrados e à disposição de quem se interesse, certamente um modelo de campo organizacional poderia ser de grande valia ao menos para construção de hipóteses mais consistentes do que as boas e velhas “alucinações”, “fantasias” e “fraudes”. Tentemos entender, então, o que viria a ser esse modelo.
Embora não seja a estratégia ideal, seguiremos com a analogia apresentada acima a fim de irmos mais fundo com as idéias do Prof. Hernani.
Assim como o desenho preenchido pela limalha dá-se numa superfície bidimensional ( a largura e o comprimento do papel), a partir de uma força tridimensional ( o campo eletromagnético do ímã), nosso corpo é formado por matéria agregada a um campo bio-magnético de uma estrutura quadridimensional. Na mesma linha de raciocínio, assim como o campo eletromagnético de forma alguma necessita do papel e da limalha para existir, apenas para se manifestar, o campo biomagnético, bem como a fonte de informação que lhe conforma, não perecem quando retiramos a matéria que lhe é agregada no universo físico, o que bem pode favorecer uma concepção de “espírito” e de sobrevivência após a desagregação da matéria na experiência da morte. A natureza magnética desse campo organizacional grava, assim como um K-7, as experiências nossas aqui neste “plano” tridimensional, o que garantiria a sobrevivência da individualidade. Há também um aspecto importante a ser destacado quando se fala de “espírito”. Sem querer mergulhar em labirintos metafísicos, não posso crer em diferenciações absolutas entre uma natureza material e outra espiritual, uma vez que o Ser, por definição, é uno. O que muitas vezes entendemos por “entes incorpóreos” na realidade são entes de corpos cuja materialidade é real mas que nos escapa. Hernani denomina essa matéria de “matéria psi”, responsável por nossas intelecções, percepções bem como pela vitalização da matéria mais densa de que nos revestimos para experimentar o que o “plano tridimensional” tem a nos oferecer. Todas as experiências registram-se na sede do espírito, para que, num movimento crescente de consciência, possamos participar ativamente do concerto universal.
É certo que este texto trata-se de um esboço grosseiro das idéias do Prof Hernani. Se você não o conhece e por acaso sentiu-se interessado por seu pensamento, recomendo as seguintes obras, que certamente abrirão uma série de questionamentos e horizontes insuspeitos:

Morte,renascimento,evolução: uma biologia trancendental (Ed.Pensamento)
Espírito,perispírito e alma (Idem)
Psi quântico (idem)
A leitura dessas obras certamente cobrirá as lacunas deixadas por estas linhas, e acrescentará matizes novos à maneira descolorida pela qual alguns temas foram colocados.

Wednesday, June 01, 2005

Entropia e Vida

Escolhido o terreno, comprado o material,reservado o domingo para uma jornada de trabalho, você decide construir sua casa. De camiseta e boné, você chama os amigos para darem uma força; eles franzem o cenho mas, antes de pegarem a primeira desculpa que apareça, logo são tranqüilizados com a promessa de que não farão quase nenhum esforço e, ainda por cima, assistirão a um espetáculo inusitado.
Diante do espaço vazio você pede aos amigos que peguem alguns tijolos e os atirem no centro do terreno. Algo divertidos – afinal é domingo – seus amigos começam aquilo que pensam ser uma loucura – para logo acharem que eles é que estão ficando loucos.
Os tijolos lançados organizam-se prontamente formando a figura de uma casa; o cimento – sim, é preciso atirá-lo também – automaticamente aloja-se nos interstícios dos tijolos, e as telhas e os pedaços de madeira arrumam-se em um telhado que parece feito por mãos invisíveis. Como uma espécie de atentado final à sanidade, alegres móveis passam por seus catatônicos amigos e entram na casa recém-construída. Não é nem preciso dizer que, lá dentro, “arrumam-se” no lugar certo. Toda a sujeira da construção é expulsa. Você, então, convida os companheiros para um chopp comemorativo. Após um longo silêncio eles acham melhor procurar uma cachaça brava. E bem rápido.
A probabilidade de uma casa se auto-organizar é mínima ( e “mínima”, aqui, é o mais generoso dos adjetivos). Uma lagartinha que se transforma em borboleta, porém, é algo mais complexo do que uma casa e é, no entanto, auto-organizadora. Ou seja, uma borboleta é algo muito mais “impossível” do que uma casa mágica. Porque toma o rumo contrário daquele que o universo físico toma. O rumo contrário ao que a ENTROPIA aponta.
ENTROPIA, em linhas grosseiras, é desordem. Algo que só tende a crescer em nosso universo com o passar do tempo. Um copo de vidro cai e os cacos espalham-se pelo chão; uma casa abandonada desagrega-se e é invadida pelo mato; um Império enforca-se com as próprias contradições e é pulverizado pelos bárbaros: isso é ação da entropia. O termo “entropia” está ligado à Termodinâmica, especificamente ao segundo dos dois princípios desse ramo da ciência enunciados pelo engenheiro Sadi Carnot no século XIX.
Pegue uma xícara de café bem quente. O café quente é uma substância cujas partículas estão em um dado arranjo, uma “ordem”. Agora, antes que o vejam, pegue uma pedra de gelo e coloque no café. Haverá uma destruição do desnível de temperatura entre os dois meios, e nesse processo o arranjo original das partículas do café é desfeito e , à medida que a temperatura tende à uniformidade, a probabilidade de o arranjo repetir-se diminui ao mínimo. Se quiser, tome o xarope que restou, sabendo que a mesma lei que esfriou seu café é a mesma responsável pelo resfriamento de todo o Universo no futuro. É inevitável: a beleza do cosmos será reduzida a um cemitério congelado.
Porém, os sistemas vivos seguem um rumo contrário à desorganização inerente a tudo: a vida que pulsa em mim, em você, no Totó abanando a cauda aí do lado, além de auto-organizar-se, mostra-se mais e mais complexa através dos mecanismos da seleção natural. Que bela contradição, não é mesmo?
Como explicar isso?
O cientista Ludwig von Bertalanffy afirmou que não há nenhuma lei da física que assegure, nas condições iniciais de vida na Terra, o desenvolvimento de organismos em uma direção crescente de complexidade. Organismos que sobrevivem à seleção pressupõem a existência de sistemas que se conservem por si mesmos. Segundo o cientista, eles são possíveis se levarmos em conta a existência de CAMPOS ORGANIZACIONAIS. Como pretendo analisar essa idéia no próximo post, prefiro adiantar que esses campos não apenas são possíveis como também existem, mas em outra dimensão do espaço, além da matéria tal qual a concebemos. Mas antes disso devo estudar um pouco mais os livros do Prof. Hernani Guimarães Andrade, que me ajudaram a compor este texto e me ajudarão nos próximos. A ele, autor do exemplo da casa e da borboleta, meu muitíssimo obrigado.

Saturday, May 28, 2005

Felix Culpa

Meu amigo Reuben Da Cunha certamente perdoará o empréstimo que tomarei de uma correspondência nossa, a qual problematizava alguns aspectos de sua poesia (conheçam-na: http://otrompetistagago.zip.net/ ). A poesia foi responsável por boa parte de minhas amizades, iluminações e frustrações; não por acaso ela servirá de introdução ao tema do dia.
Eu observava, na ocasião, a felicidade dos procedimentos por ele utilizados na construção de seus poemas curtos. Mais que um exercício de concisão, os “poeminhas” eram verdadeiras demonstrações de leveza e rigor, qualidades que admirei e persigo, não mais para os meus versos, mas para a minha vida. Ocorria, porém, que os poemas de Reuben, quando se estendiam muito, causavam-me um efeito dispersivo. Há nos poemas longos uma série de qualidades muito caras a certas alas dos poetas pós-modernos ( a subversão da sintaxe, a imagem profusa e fragmentária e “a mestiçagem semântica” – termo interessante que encontrei em um texto de Cláudio Daniel), que a mim atraem na medida em que são experimentos, e apenas enquanto experimentos; no mais, eu acrescentava que os signos, para mim, não deveriam estar sempre em rotação: afinal eles precisam de algum lastro. É uma opinião discutível; mas acompanhem-me e vejam para onde me dirijo.
Dispersão/Concisão; de fato é a respeito disso que gostaria de falar. Precisarei, mais uma vez, de símbolos geométricos. Após a esfera, o círculo.
Jung afirmava que o círculo é um dos mais poderosos símbolos religiosos. Vá ao Tibet, à Índia, vasculhe códices medievais, visite índios navajos e você encontrará mandalas e representações circulares da Divindade e do espírito. Joseph Campbell, a quem sempre recorro quando procuro escrever sobre esse tema, explica que o círculo, num sentido espacial, representa a totalidade; no temporal, a idéia de que você parte de algo, peregrina um tanto, mas depois retorna ao ponto originário. Confesso que a idéia de retorno, a princípio, me inspirava certo pânico, provavelmente fundado em leituras nietszchianas de segunda mão. Depois percebi que há uma abordagem mais criativa a respeito disso. Uma interpretação da parábola do filho pródigo é o primeiro passo dessa abordagem.
Um jovem chega ao pai rico e pede-lhe “ a parte da natureza que lhe convém”, segundo a tradução do texto grego. “Parte da natureza” não significa necessariamente dinheiro ou bens, segundo a interpretação do professor Huberto Rohden. Significa simplesmente o direito de agir com liberdade, de se afastar da casa paterna, onde, por anos, viveu-se numa estufa de carinho, conforto e proteção, mas onde não se possuía autonomia. O jovem pede uma natureza conforme à sua condição de não ser mais criança.
O pai deixa que se vá sem protesto algum. O filho mais velho, por sua vez, continua sob as asas do pai. A parábola não emite qualquer julgamento negativo a respeito da postura do filho mais velho. Interessa-lhe a odisséia daquele que se afasta do centro onde tudo era harmonia para, a fim de conhecer-se, vagar nos círculos que, em seus giros, afastam-se gradativamente de sua fonte. E dispersa-se. E dilapida seus bens e suas forças. Percorre a vida, conhece o prazer e a dor que lhe está intimamente associada. Cansa-se. Chora. Mas ainda não é tempo de voltar; ele associa-se a um fazendeiro que lhe oferece a tarefa inglória de, não só cuidar dos porcos, mas conviver debaixo do mesmo teto que eles, comendo do mesmo que comem. Os porcos chafurdam, comem e dormem, satisfeitos. O jovem finalmente reconhece que chegara ao ponto de saturação. Ele não é um porco, alguém que se sinta satisfeito unicamente com o que lhe entra pelo estômago e que lhe proporcione um sono pesado. E resolve voltar à casa paterna. E retorna; e é recebido com festa; e assume um posto que sempre fora seu. Mas retorna temperado pela experiência; vive plenamente a felicidade na casa do pai, pois conheceu o bem e o mal.
Mais que uma bela história de amor paternal essa parábola é um primor de metafísica. Revisito meus livros sobre Cabala e encontro algo interessante: Deus (sim, poderia utilizar um termo mais neutro, mas não tenho mais receio dessa palavra), sendo a fonte de tudo quanto é belo e rico, quer passar toda essa plenitude a alguém, pois sendo Amor é também Doação; e cria uma espécie de receptor primordial, Adam Kadmon. Adam recebe tudo quanto há em Deus, menos uma coisa: o poder de também ser criador, e de compartilhar do que cria. Os cabalistas explicam essa situação embaraçosa de Adam com uma bela imagem: o Homem Primordial comia o Pão Da Vergonha. Para saber o que é o pão da vergonha basta olhar para um desses adolescentes de classe alta que ao menor estalo de dedos conseguem o que querem dos pais e verificar o que será a vida deles dentro de uns dez anos. Para remover o Pão Da Vergonha Adam dilacera-se, afasta-se do centro divino e mergulha na experiência material, que é dualista e dispersiva . Mas isso é uma parte do aprendizado de sua autonomia; logo ele descobre que precisa retornar ao centro; e a sua jornada de retorno é longa, cheia de dificuldades, mas, por ser sua jornada, é heróica e bela, como belo será o seu retorno. Gostaria de falar do sentido da ressurreição de Cristo por esse viés, mas não queria ser ligeiro com um tema tão importante. De qualquer forma, já que tocamos no Cristianismo, eu gostaria de repetir a surpresa que o já citado Joseph Campbell sentiu ao reler a Carta aos Romanos e deparar com isso (Campbell estava envolto com a recorrência do tema pecado/redenção na obra de James Joyce): “Pois Deus condenou todos os homens à desobediência para que pudesse mostrar sua misericórdia para com todos”. Longe de parecer uma afronta à liberdade, isso me parece o maior dos elogios à liberdade. É o tema do canto “Felix Culpa” – “decaídos” somos, sim, para conhecermo-nos e conhecermos a natureza íntima de tudo; para sermos criadores de nosso destino e parceiros da Divindade na construção da Realidade.
Gostaria de terminar com uma experiência pessoal. Há certos dias na semana em que trabalho muito. Acordo às cinco da manhã, pego meu reloginho e prevejo as voltas que os ponteiros darão durante meu dia. Trabalho com pessoas, e elas são imprevisíveis; eu não me arriscaria, no início da manhã, a dizer de que natureza será meu dia. E ele passa. Quando volto para casa, pego o mesmo reloginho e vejo o ponteiro no número cinco, de novo. Mas eu não sou o mesmo das cinco da manhã; bom ou mau, o dia me fez mais forte e mais experiente; deixo o reloginho no criado-mudo, vou à geladeira, pego um copo d’água e me sento para descansar. “Estou em casa”, penso. E é o suficiente.


Thursday, May 26, 2005

Pitágoras, uma esfera de vidro e o Big Bang

Há pouco mais de dois anos tive a sorte de conhecer algo do pensamento pitagórico através das obras do filósofo Mário Ferreira dos Santos. Antes disso, para mim, Pitágoras era apenas um sussurro disperso entre um e outro manual de filosofia, e que parecia dizer algo a respeito de favas, almas que retornavam em pulgas e entes de dolorosa memória chamados catetos. Um livrinho intitulado “Pitágoras e o tema do número” ajudou-me a levantar de tão deplorável lamaçal.
O que me chama a atenção no pensamento pitagórico, além da elegância de suas proposições, é a beleza entrevista na simbólica dos números e das figuras geométricas; as figuras e números pitagóricos podem comportar o silêncio, o vôo do pássaro, a matéria e a forma, o abismo, o amor e a música. Enquanto pensava no que escrever para publicar aqui, veio-me à mente a imagem de uma esfera de vidro que passou a me perseguir como um pesadelo; quando parei para vê-la, porém, soube exatamente o que precisava ser feito.
Eis a esfera diante de mim. Com os olhos da mente, procuro desvendar sua estrutura oculta, os elementos invisíveis que a configuram. Pego um papel e, em seguida, no centro da folha, marco um ponto. A partir dele traço duas retas, uma na horizontal, outra na vertical, e passo a ter uma cruz. Algo satisfeito, verifico poder, facilmente, visualizar esta cruz como os raios de um círculo; e desenho o círculo. No meu papel bóia talvez a mais enigmática figura da geometria; como símbolo o círculo já vestiu o sol, a proteção dos magos e as profundezas da psique humana. E no entanto não estou satisfeito. Quero uma figura imaginada em três dimensões. Para isso, traço uma diagonal que corta a intersecção dos raios do círculo. Vejo, a partir de então, uma esfera. Os pitagóricos veriam mais. Eles veriam nela o universo.
Em um primeiro estágio, a esfera pode representar as relações do homem com o espaço: a partir do centro, saem as linhas que representam o norte, o leste, o sul, o oeste; as diagonais mostram o atrás e o adiante. Mas um símbolo sempre comporta mais de um grau; e a esfera passa a representar não as relações do homem com o espaço, mas o próprio espaço.
Penso na teoria do Big Bang. De um ponto mínimo, cuja densidade nos escapa à imaginação, surgiu o que entendemos por universo. Um universo que, por sua vez, expande-se qual um balão que enchemos de gás, e cujos limites não conhecemos. A partir de um centro não localizável em um lugar – porque não havia espaço antes da singularidade – e do qual não se pode falar de um “antes” -, porque foi da explosão que o tempo lançou seus tentáculos -, tudo quanto existe formou-se. O que teria posto essa “singularidade”, feito o ponto no papel do além espaço-tempo?
Fred Alan Wolf assegura que, somada toda a energia do universo, a da matéria e da anti-matéria, a resultante é zero. Porém, a soma de toda a informação tende ao infinito. Diante disso, posso apenas concluir que o “nada” de onde surgiu o universo é um espirro do Tudo – a fonte de toda a informação do que foi, é e será. E como esse “Tudo” não é limitado pelo espaço-tempo, ele “está” conosco aqui e agora. Utilizando a imagem antiga: Deus é o centro de uma esfera infinita, que está em toda a parte. O Uno do qual a diversidade é a sua manifestação. E para o qual todos gravitamos. Por isso tanto satisfaz-nos a noção de unidade, ou melhor, de harmonia entre unidade e diversidade: quando, entre amigos diversos, encontramos um sentimento que nos unifica; quando, em nossos estudos, encontramos um paradigma que concatene fatos aparentemente dispersos; quando, num poema, reconhecemos, no mosaico de imagens e sons, um sentido, muitas vezes invisível aos olhos da razão, mas que nossa afetividade reconhece como um bem antes perdido e subitamente reencontrado. Porque imitando o Eterno eternizamo-nos um pouco; e eternizando-nos, descobrimos, em nosso passar imperfeito por este mundo de angústia, uma janela silenciosa a dizer-nos, como o poeta Seféris: um pouco mais, elevemo-nos um pouco mais.