A Idade Do Universo
Há mais ou menos um ano li, com uma voracidade incomum a quem mui custosamente aprendeu as quatro operações e jamais conseguiu concluir uma longínqua cadeira de Estatística na faculdade, “ A verdade por trás do código da Bíblia” ( Breaking the Bible code), do psiquiatra e físico americano Jeffrey Satinover. O assunto vocês devem conhecer: estatísticos e especialistas em criptografia, tanto judeus quanto gentios, tanto religiosos quanto céticos, embasbacados diante de – ao que tudo indica – padrões ocultos no Antigo Testamento, contendo informações acerca de fatos que viriam a ocorrer séculos após a redação do Pentateuco. Como se a Bíblia fosse um computador no qual estivessem contidos dados tanto do passado quanto do presente e futuro – algo realmente assus
tador. Para esse tipo de assunto levanta-se uma legião de crédulos e outra maior de céticos. Como já fui crédulo e como já fui cético, e não trago boas lembranças de nenhuma das duas fases, prefiro manter-me à escuta. E o livro do Dr. Satinover é bom porque não alimenta a fogueira dos apressados em encontrar, a todo custo, confirmações de sua fé através da ciência, mas também não pacifica os que de bom grado torcem o nariz a qualquer assunto que lhes soe escapar da visão materialista do mundo.
Mas, conforme disse, li o livro há quase um ano e ele, embora bem escrito e didático, é bem carregadinho de Estatística e Matemática, e não serei irresponsável para sair resenhando temas que, conquanto gravados em linhas gerais na minha mente, não me são acessíveis em seus detalhes. E detalhes, nesse tipo de assunto, é algo importantíssimo. Mas, para não perder a viagem, convido vocês a relerem comigo parte de um dos apêndices do livro, que trata do sempre fascinante paralelo entre cosmologia moderna e concepções de cabalistas e filósofos judeus acerca da criação. É, no mínimo, impressionante.
“1. Por razões desconhecidas, o universo surgiu ex nihilo – do nada;
2. Ele apareceu primeiro como um ‘microglóbulo’, quase inconcebivelmente minúsculo;
3. Ele era inicialmente composto de uma minúscula proporção de matéria misturada com uma enorme quantidade de energia ‘comprimida’;
4. O ‘microglóbulo’ então explodiu, quase à velocidade da luz – o Big Bang. No seu primeiro segundo de existência, ele passou do tamanho de um pontinho, menor que um átomo, para uma massa globular com mais de 430.000 quilômetros de diâmetro, com um volume cinco mil vezes maior que o da Terra. Sua expansão fez com que grande parte da energia se convertesse, por estágios, em matéria. E desde então ele tem estado a se expandir em ritmo similar;
5. O ‘microglóbulo’ começou com dez dimensões; seis delas imediatamente ‘entraram em colapso’, reduzindo-se a escalas de tamanho tão pequenas que hoje nos são inacessíveis, restando as quatro dimensões com que estamos familiarizados: as três dimensões do espaço e a dimensão do tempo (...). A substância inicial dentro do microglóbulo tomou a forma de uma ‘corda’ decadimensional de energia quase pura. As cordas que hoje preenchem o universo permanecem quase inconcebivelmente finas e insubstanciais (...)mas, já que se estendem por todo o universo, estima-se que cada uma delas tenha uma massa equivalente a [bilhões] de sóis. Essa é a chamada Teoria das Supercordas (...).”
O autor lembra que os cientistas estimam a idade do universo em 15 bilhões de anos. E que a idéia de um universo tão velho assim só veio a ser concebida no século XX. Antes, ou se achava que ele era eterno ou então possuía alguns milhares de anos. Pensem nisso e leiam o que segue. São idéias desenvolvidas na Idade Média.
“1. Tanto Maimônides (o Rambam) quanto Nachmânides ( o Ramban) afirmam que não existia espaço nem tempo antes da Criação; por isso, ambos surgem ex nihilo – do nada;
2. Os cabalistas daquela mesma época explicam ainda que, antes da criação, Deus preencheu toda a eternidade de maneira perfeita e uniforme. No instante da criação, porém, Ele Se ‘retirou’ de uma região esférica no centro mesmo da eternidade, para criar um ‘vazio’ ou ‘vácuo’. Neste, Ele colocou uma porção de Sua própria essência sob a forma de uma linha, infinitesimalmente fina, de ‘Luz Superior’, que evoluiria até se transformar no universo físico. Segundo Nachmânides, em seu comentário sobre o relato da Criação, naquele momento parecia que o universo ‘não era maior que uma semente de mostarda’. Para os antigos, a semente de mostarda era a menor unidade viva capaz de se expandir e crescer até algo imenso.
3. Eis como Nachmânides caracterizou o tamanho dessa ‘semente’, na tradução resumida de Gerald Schroeder:
A matéria, naquele tempo, era tão fina, tão intangível, que não possuía substância real. Mas ela possuía o potencial para ganhar substância e forma, e tornar-se matéria tangível.
4. Nachmânides então descreve o que ocorre com esse minúsculo universo do tamanho de uma ‘semente’:
A partir da concentração inicial dessa substância intangível em sua localização infinitesimal, a substância se expandiu, expandindo o universo ao fazê-lo. Á medida que a expansão progredia, ocorreu uma mudança na substância. Aquela substância inicialmente fina e incorpórea assumiu os aspectos tangíveis da matéria tal como a conhecemos. Desse ato inicial da Criação, dessa pseudo-substância etereamente fina, tudo o que já existiu ou um dia existirá, foi , é e será formado.
5. O feixe de ‘Luz Superior’ que formou o universo em seu estado ‘semente’ era composto de dez aspectos ou dimensões. Durante os seis dias da criação , seis desses aspectos tornaram-se tão pequenos que somos capazes de detectar apenas os outros quatro –as quatro dimensões da existência física”.
Intrigante é saber que cabalistas como Nechunya bem HaKanah e Yitzhak Acco calcularam, a partir de permutações e do cálculo de letras no relato do Gênese ( no hebraico, cada letra equivale a um número)e concluíram que a idade do Universo entre seu surgimento e a criação do homem consistia em 42.000 Anos Divinos. Cada “ano divino” corresponde a 365.250 dos nossos anos. Assim, entre a origem do universo e o surgimento do homem passaram-se 42.000 x 365.250 anos. O Gênesis,portanto, diz que o universo nasceu há 15.3 bilhões de anos. Eu repito: isso foi na Idade Média.
Citações: Satinover, Jeffrey. A verdade por trás do código da Bíblia. SP: Pensamento,2002 (pp.281 a 283)
tador. Para esse tipo de assunto levanta-se uma legião de crédulos e outra maior de céticos. Como já fui crédulo e como já fui cético, e não trago boas lembranças de nenhuma das duas fases, prefiro manter-me à escuta. E o livro do Dr. Satinover é bom porque não alimenta a fogueira dos apressados em encontrar, a todo custo, confirmações de sua fé através da ciência, mas também não pacifica os que de bom grado torcem o nariz a qualquer assunto que lhes soe escapar da visão materialista do mundo.
Mas, conforme disse, li o livro há quase um ano e ele, embora bem escrito e didático, é bem carregadinho de Estatística e Matemática, e não serei irresponsável para sair resenhando temas que, conquanto gravados em linhas gerais na minha mente, não me são acessíveis em seus detalhes. E detalhes, nesse tipo de assunto, é algo importantíssimo. Mas, para não perder a viagem, convido vocês a relerem comigo parte de um dos apêndices do livro, que trata do sempre fascinante paralelo entre cosmologia moderna e concepções de cabalistas e filósofos judeus acerca da criação. É, no mínimo, impressionante.
“1. Por razões desconhecidas, o universo surgiu ex nihilo – do nada;
2. Ele apareceu primeiro como um ‘microglóbulo’, quase inconcebivelmente minúsculo;
3. Ele era inicialmente composto de uma minúscula proporção de matéria misturada com uma enorme quantidade de energia ‘comprimida’;
4. O ‘microglóbulo’ então explodiu, quase à velocidade da luz – o Big Bang. No seu primeiro segundo de existência, ele passou do tamanho de um pontinho, menor que um átomo, para uma massa globular com mais de 430.000 quilômetros de diâmetro, com um volume cinco mil vezes maior que o da Terra. Sua expansão fez com que grande parte da energia se convertesse, por estágios, em matéria. E desde então ele tem estado a se expandir em ritmo similar;
5. O ‘microglóbulo’ começou com dez dimensões; seis delas imediatamente ‘entraram em colapso’, reduzindo-se a escalas de tamanho tão pequenas que hoje nos são inacessíveis, restando as quatro dimensões com que estamos familiarizados: as três dimensões do espaço e a dimensão do tempo (...). A substância inicial dentro do microglóbulo tomou a forma de uma ‘corda’ decadimensional de energia quase pura. As cordas que hoje preenchem o universo permanecem quase inconcebivelmente finas e insubstanciais (...)mas, já que se estendem por todo o universo, estima-se que cada uma delas tenha uma massa equivalente a [bilhões] de sóis. Essa é a chamada Teoria das Supercordas (...).”
O autor lembra que os cientistas estimam a idade do universo em 15 bilhões de anos. E que a idéia de um universo tão velho assim só veio a ser concebida no século XX. Antes, ou se achava que ele era eterno ou então possuía alguns milhares de anos. Pensem nisso e leiam o que segue. São idéias desenvolvidas na Idade Média.
“1. Tanto Maimônides (o Rambam) quanto Nachmânides ( o Ramban) afirmam que não existia espaço nem tempo antes da Criação; por isso, ambos surgem ex nihilo – do nada;
2. Os cabalistas daquela mesma época explicam ainda que, antes da criação, Deus preencheu toda a eternidade de maneira perfeita e uniforme. No instante da criação, porém, Ele Se ‘retirou’ de uma região esférica no centro mesmo da eternidade, para criar um ‘vazio’ ou ‘vácuo’. Neste, Ele colocou uma porção de Sua própria essência sob a forma de uma linha, infinitesimalmente fina, de ‘Luz Superior’, que evoluiria até se transformar no universo físico. Segundo Nachmânides, em seu comentário sobre o relato da Criação, naquele momento parecia que o universo ‘não era maior que uma semente de mostarda’. Para os antigos, a semente de mostarda era a menor unidade viva capaz de se expandir e crescer até algo imenso.
3. Eis como Nachmânides caracterizou o tamanho dessa ‘semente’, na tradução resumida de Gerald Schroeder:
A matéria, naquele tempo, era tão fina, tão intangível, que não possuía substância real. Mas ela possuía o potencial para ganhar substância e forma, e tornar-se matéria tangível.
4. Nachmânides então descreve o que ocorre com esse minúsculo universo do tamanho de uma ‘semente’:
A partir da concentração inicial dessa substância intangível em sua localização infinitesimal, a substância se expandiu, expandindo o universo ao fazê-lo. Á medida que a expansão progredia, ocorreu uma mudança na substância. Aquela substância inicialmente fina e incorpórea assumiu os aspectos tangíveis da matéria tal como a conhecemos. Desse ato inicial da Criação, dessa pseudo-substância etereamente fina, tudo o que já existiu ou um dia existirá, foi , é e será formado.
5. O feixe de ‘Luz Superior’ que formou o universo em seu estado ‘semente’ era composto de dez aspectos ou dimensões. Durante os seis dias da criação , seis desses aspectos tornaram-se tão pequenos que somos capazes de detectar apenas os outros quatro –as quatro dimensões da existência física”.
Intrigante é saber que cabalistas como Nechunya bem HaKanah e Yitzhak Acco calcularam, a partir de permutações e do cálculo de letras no relato do Gênese ( no hebraico, cada letra equivale a um número)e concluíram que a idade do Universo entre seu surgimento e a criação do homem consistia em 42.000 Anos Divinos. Cada “ano divino” corresponde a 365.250 dos nossos anos. Assim, entre a origem do universo e o surgimento do homem passaram-se 42.000 x 365.250 anos. O Gênesis,portanto, diz que o universo nasceu há 15.3 bilhões de anos. Eu repito: isso foi na Idade Média.
Citações: Satinover, Jeffrey. A verdade por trás do código da Bíblia. SP: Pensamento,2002 (pp.281 a 283)
